segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ossos do ofício

– Por que essa cara amarrada? Tá nervosinho?
– Nervosinho? Eu tô é puto! Puto!
– Xii, tá de chico.
– Vai se foder...
– Pra que tanto ódio, meu caro?
– Pra que tanto idiota, meu caro?
– Só agora percebeu a extensão da estupidez humana?
– Não, isso não me é novo. É outra coisa.
– O quê?
– Meus escritos. Ninguém os lê. Eu tento vender um livro, levo cem portadas na cara pra cada desinteressado sim “pra me ajudar”. E mesmo estes eu nem sei se vão ler. Aí eu me iludo: “ah, eles não têm dinheiro pra gastar com algo ‘supérfluo’”. Aí abro mão de qualquer proveito e posto de graça – de graça – meus escritos no blog. Cadê que algum corno lê?
– Fica assim não...
– Nem meus familiares. Nem meus “amigos”, cara. Acabei meu primeiro romance. Um romance curtíssimo: o li em três horas. O livro foi aprovado por três editoras grandes. Não foi rejeitado por nenhuma. Cadê que algum filho da puta leu? Uns pediram pra ler, outros me congratularam, mas, quando eu enviava o arquivo, nem um puto o lia. A maioria parava no título. Outros, mais caridosos, no prefácio. Têm muitos livros pra ler, tão muito ocupados. Nas férias, cara, nas férias...
– Sei lá, velho, vai que eles tão mesmo ocupados? Eles podem estar fazendo algo melhor, tipo... sexo.
– Tu não leva nada a sério mesmo, hein?
– Relaxa, irmão. O início é foda mesmo, cê tem que engolir uns sapos, lamber uns ovos, mas quando cê ficar famoso eles vêm atrás.
– Eu nunca vi um médico ter de lamber os ovos de seus pacientes...
– Que que os médicos têm a ver?
– Eles conferem alguma qualidade de vida a seus clientes, ou, na melhor das hipóteses, salvam suas vidas.
– E você faz isso, é?
– É. Meus textos foram feitos pra isso. Pra ressignificar conceitos nocivos, pra suscitar reflexões no leitor. Pra fazê-los sentir, na pior das hipóteses. Eu posso salvá-los com minhas ideias!
– Salvá-los de quê?
– Da morte... da vida... desse mundo cruel, da ignorância, da indolência.
– Rufem os tambores! Temos o novo messias!
– Que é? Vai dizer que seus textos são mero entretenimento? Diversão barata e vazia, dessas que achamos em qualquer esquina?
– Não, claro que não. Mas cê não acha que tá sendo pretensioso demais, não?
– Não... Tá, um pouco. Mas e daí? Pretensão não seria nem de longe um privilégio meu nesse meio artístico.
– Claro, tá escusado ser presunçoso, todo mundo o é!
– Ah, tu entendeu. E tá falando o quê? Tu também tem seu bom bocado de presunção.
– Eu entendi... Eu entendo. Também tô nesse barco, esqueceu? Só não deixa isso te amolar. Cê gosta de escrever, né?
– Gosto... só queria ter um motivo. Não queria que meu escrever fosse uma masturbação...
– Você e suas metáforas... Fica tranquilo. Lerão seus textos. Fica tranquilo.
– Falando nisso, quer ler meu primeiro romance?
– Puxa, velho, desculpa! Tô meio ocupado...

Olá, amigos! Wilton aqui. Segunda feira a partir de hoje é meu dia! Escolhi a segunda porque ela, assim como eu, é um pária. Digamos que não somos exatamente benquistos XD esse foi um desabafo sobre a minha realidade e a de vários outros escritores, suponho. Espero que tenham gostado ;D perdoem os palavrões