sábado, 30 de novembro de 2013

O Plano - Friendzone, capítulo 2

Cassie e Sid, Skins UK, personagens
que indiretamente inspiraram este conto
- Você tem certeza de que quer fazer isso?

Um breve silêncio se seguiu. Os dois estavam sozinhos no elevador panorâmico de um famoso edifício comercial da cidade, onde consultórios médicos e clínicas odontológicas dividiam o espaço com imobiliárias e escritórios de contabilidade. Aqui e ali surgiam misteriosas salas não identificadas onde pessoas suspeitas entravam e saíam discretamente.

- Claro que tenho - ela respondeu - já cheguei até aqui, meu bem, não vou voltar atrás agora. Falou pressionando o botão que levava ao décimo andar.

Erick suspirou preocupado, mas assentiu.  Ambos se debruçaram sobre o suporte metálico do elevador, observando pelo vidro as pessoas abaixo deles ficarem pequeninas, como se um bando de liliputianos ali estivesse.

Melissa estava inquieta. Não soltava nem por um momento o pingente da Casa Stark pendurado em seu pescoço, bastante ansiosa, dava voltas com o lobo gigante pela corrente enquanto mordia o lábio inferior. 

Erick se aproximou timidamente e falou com o máximo de cuidado, como que evitando irritar a amiga:

- Sabe Mel, podemos voltar outro dia, não precisa fazer isso hoje. Você deveria falar sobre isso com sua mãe antes, se ela descobrir de outro jeito não vai mais confiar em você.

- Já está decidido coração, eu já tenho 16 aninhos, já passou da hora disso acontecer, minha mãe evita o assunto toda vez que menciono e isso é muito injusto comigo, afinal é da minha vida que estamos falando, concorda?  Basta seguir o plano.

A porta do elevador se abriu. No corredor vazio, o ruído agudo e constante de uma máquina de tatuar indicava que eles haviam chegado ao lugar certo.

Era um dos estúdios de tattoo mais famosos da região, recomendado pelo extremo profissionalismo do proprietário, tanto nas condições de higiene e trabalho como na perfeição de suas artes.

Na recepção, uma moça estava concentrada, desenhando fractais sobre uma mesa de vidro abarrotada de ilustrações. Muitas tatuagens adornavam seu ombro, peito e braços. Sua pele era muito branca e seus cabelos muito escuros, usava uma camiseta com a frase “Keep calm and don´t blink”, uma referência a Doctor Who. Naquela sala impecavelmente limpa e organizada, fotos de pessoas tatuadas estavam cuidadosamente expostas nas paredes, ao lado de muitos certificados e troféus.

Antes de abrirem a porta, Melissa hesitou por um momento e desabafou:

- Estou nervosa Erick...

quinta-feira, 4 de julho de 2013

doe sangue!


os pernilongos castigam meus pés
hey! ainda estou vivo, ainda corre sangue em minhas veias
eles sabem disso
e, por isso, castigam meus pés
“se é isso que cêis qué, vem pegá...”
é engraçado
estar empregado, sem tempo para escrever
ou sem nada para fazer, pensando em arrumar um emprego
um maldito pernilongo só precisa se preocupar em foder e chupar
no momento, ele chupa meu sangue
podia parar de escrever este lixo e pegar um, pelo menos um, no pulo
esmagá-lo na minha mão, ver quanto do meu sangue o maldito chupou
doação na marra
nós estamos sempre nos doando involuntariamente
ao governo, empresas, família, amigos, amores
eles tiram nosso sangue, nossa essência, e se vão, voam para longe
se você tiver a oportunidade, esmague um deles entre as mãos e veja quanto sangue de ti ele tirou
só no sentido figurado, ok?

terça-feira, 2 de julho de 2013

"É bom ficar só
Só somente
Somente só
Só na mente"

sexta-feira, 7 de junho de 2013

GOSTO

“Gosto do chato, do feio, do desconhecido. Gosto do mistério, da ferida ardente, de quem mente. Gosto do que é e do que deixa de ser, do que vem e do que vai, do que deseja e depois não quer mais. Gosto do ruim, do péssimo, do inesquecível. Gosto de quem sonha com o fim, de quem se envolve com quem não está a fim, de quem corre de mim. Gosto de quem vê, de quem pega, de quem quebra. Gosto da morte, da falta de sorte, do soco forte.
Gosto de mim.” 

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Seja homem e não me siga; eu mesmo fugi de mim, e, agora, olho para o que eu fui – por muito tempo


E pensar que eu costumava ser visto na companhia de cervejas importadas e cigarros Lucky Strike e mulheres com tatuagens desconexas, e poetas herméticos, mais desconexos ainda. Tinha uma garota, Candy... Bom, o nome dela era Jennifer, na verdade, mas Candy lhe parecia mais atrativo. E um cara. Não lembro o nome dele agora, mas a poesia dele fedia a amor platônico. Tudo parecia mais atrativo – de dentro –, mas éramos só aquilo que se via, superficiais como os cinzeiros, onde descansavam nossos cigarros Lucky Strike; aliás, queimavam mais ali que em nossas bocas. Candy tinha uma boca sempre púrpura, como o coração estampado em sua coxa esquerda, que era acompanhado de uma faca e um terço. Ela e o poeta me acompanhavam, e as cervejas importadas vinham na rabeira.

Todos nós, e os outros também, escrevíamos; nos proclamávamos os malditos, os subversivos, os antis-sistema, a contracultura; usávamos toda e qualquer palavra que soava bacana nas nossas vozes cansadas, corroídas pelo cigarro e pelas noites mal-dormidas; o café... as calçadas geladas. Alternativos e destemidos! – que mudavam as próprias palavras quando o corretor ortográfico do computador dizia que estávamos errados. Na verdade, nossa falta de noção do ridículo e de qualquer discernimento nos fazia mudar as palavras sempre no momento errado; agir precipitadamente, tornando o texto mais espalhafatoso - e nada sincero. Éramos escandalosos em nossas palavras, tínhamos tudo - e tínhamos nada... Nunca contamos moedas do lado de fora de uma padaria, nunca comemos sentados numa calçada suja. Não sabíamos o que era gentileza; tampouco, escrever bem. Cuspíamos no chão, e entrávamos no café, a esquerda, para falarmos alto – que escândalo! – sobre como éramos bons naquilo que não fazíamos.

Aquelas poetisas (que nome escroto)... Bucetas molhadas que nada mais faziam, além de subir e descer, sem nenhum objetivo... Transar com uma delas era como ler um dos poemas que produziam. Palavras enfileiradas. Elas jogavam metade para um lado metade para outro e continuava parecendo com palavras enfileiradas; com nada. Só faziam sentido para elas e suas bucetas e para Candy e a tatuagem de coração púrpura com faca e terço. Ah! e quantas vezes eu pensei sair dali... e ir pra onde? Eles me respeitavam, de certa forma. A não ser por não serem sinceros com aquilo que lhes oferecia, mas o que lhes oferecia, meus contos, também não era nada sincero. Elas por elas...

Nós fazíamos saraus. SARAUS. E nos achávamos o máximo por isso. EGOS. Não tinha espaço para todos eles naquele pequeno palco, com microfone e banco de madeira, na rua 15...

Eu não volto mais lá...

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Quando a Lua se vinga - da série "Contos Inacabados"



Aquele tinha sido um dia estranho no vilarejo, uma manhã calma e silenciosa, uma tarde de muitos ventos, nenhuma nuvem no céu de um outono frio. O sol parecia mais apressado do que de costume e já seguia seu caminho rumo ao ocaso dando lugar a uma pálida escuridão.

A estrada para a cidade de Akello, cortava o vilarejo de Raani trazendo sempre forasteiros e viajantes, procurando por hospedagem. Os moradores que tinham boas casas, sempre alugavam quartos para os viajantes, contudo a principal hospedaria do vilarejo era mesmo a de Donkor Basiel, com muitos quartos, estábulo para os animais e uma taberna.

Naquela semana, um mercador da cidade de Nura trouxera alguns barris de uma safra especial de vinhos, o que atraía compradores de todas as terras da região, gerando bastante movimento, principalmente durante a noite.

A Lua cheia erguia-se no leste, quando começaram a chegar cavaleiros, servos e vassalos de Sor Abod, para provar do precioso vinho cultivado nas terras de Nura. Hamza, o caçador e seus dois filhos chegaram ao anoitecer, seguidos pelos servos de Sor Emmet.

Pouco tempos depois das estrelas da Serpente Alada surgirem no céu, Anke e Kimei, sobrinhos de Sor Dosha, chegaram fazendo muito ruído, rindo e falando alto.

Esses dois irmãos eram conhecidos baderneiros e já estariam mortos se não fossem sobrinhos do temido Sor Dosha, vassalo de Lorde Tau, o Senhor de Akello. Dentro da taberna, encontraram os servos de Sor Abod e começaram a provocá-los, zombando deles das diversas maneiras, os servos ouviam as provocações mas se limitavam a ignorá-las, mesmo sabendo que qualquer um deles poderia derrotá-los no caso de uma briga. Mas se isso acontecesse, seus senhores iriam se enfrentar e haveriam muitas outras mortes. Alguns deles ainda se lembravam da Batalha do Vale da Figueira, o último confronto entre Sor Abod e Sor Dosha. A paz só fora alcançada com a intervenção diplomática de Lorde Tau e era mantida com muita dificuldade.

A noite estava clara e por algum motivo qualquer, os dois resolveram sentar-se ao ar livre, numa mesa de madeira do lado de fora da taberna, para a discreta alegria de todos. Mesmo do lado de fora, gritavam como loucos, rindo e se ofendendo mutuamente.

_ Prostitutas! Gritavam do lado de fora. Não há mulheres nesta taberna, Donkor, seu maldito!

E realmente não haviam. Donkor Basiel, tinha esposa e filhas. Não permitia prostitutas na sua estalagem.

Não haviam bordéis em Raani. Uma cortesã, chamada Shifa percorria os vilarejos numa pequena comitiva com algumas prostitutas em três carroças e como não eram bem vindas ali, normalmente paravam sua comitiva num descampado á beira da estrada, próximo ao rio.

Os dois irmãos continuavam do lado de fora pedindo por prostitutas e gritando todo tipo de imoralidades.

_ Donkor, seu maldito, vá buscar a velha Shifa, pagarei uma moeda de prata por um par de coxas quentes - gritou Kimei.

_ A velha Shifa está no descampado – gritou um dos servos de Sor Emmet – chegou de Limber há dois dias, com algumas mulheres novas, uma delas é da Ilha de Nayo.

As mulheres da ilha de Nayo, eram reconhecidas por sua extrema beleza, dizia-se que eram descendentes de uma das criaturas do mundo antigo, tinham rostos perfeitamente simétricos e cabelos de diferentes cores, eram cobiçadas em todos os reinos e quando se tornavam prostitutas cobravam fortunas por seus serviços.

sábado, 11 de maio de 2013

Homem Nuvem


Branca, pluma, macia, suave.
Queria ser uma nuvem. Ser arrastado pleo vento, abençoado pelo Sol...
Ausente do tempo, cada vez mais vivo, a cada momento. Cruzar os céus, imensidão azul divina, com pássaros ao meu redor, suas asas batendo para longe, livres, tão livres... Como eu queria ser uma nuvem.
Mas sou apenas um homem. Apenas um homem que quer ser nuvem.
E de repente, sou.
Vejo-me aqui, no céu, dançando na imensidão azul,. sendo levado pelo vento, abençoado pelo Sol... preso.
Vejo homens e mulheres o dia todo, todo dia. Andam, correm, vivem, choram, sorriem... quero ser como eles são, sentir o que eles sentem, viver como eles vivem...
Queria ser um homem.

domingo, 5 de maio de 2013

Estrada


Ia assim, meio assim meio assado.
Cantava, bebia, tragava e acelerava.
Chorava, gritava, bebia e acelerava.
Cochilava, lembrava, sorria e acelerava.
Urrava, sangrava, cochilava e acelerava.

E por entre quilômetros de lágrimas e madrugadas de cafeína e álcool  parou. Apenas parou. Desceu, olhou. Pegou uma pedra, a maior que tinha em volta e a soltou no acelerador. Entre uma tragada e um gole, assistia o show. Lentamente o carro descia, descia e descia, até cair de vez, se destruir e explodir. Ele sorriu. Secou uma lágrima perdida no canto do olho esquerdo, atirou a garrafa vazia para longe e começou a andar. Para longe também...

quarta-feira, 24 de abril de 2013

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Cara Jéssica


Cara Jéssica Ingrid,

Antes de mais nada quero que saiba que desde a primeira vez que te vi, imaginei que seu nome fosse assim, bem incomum. E não é que acertei? O que leva alguém a colocar dois nomes fortes como esse em um filho? Não precisa responder, perguntarei para a sua mãe quando tiver a oportunidade. 

Bem, vamos parar de enrolação e ir direto ao assunto. Muito me agrada o fato de você ter entrado em minha vida, mas muito me desagrada o fato de tê-la deixado. Mas vamos parar de papo furado e ir direto ao que interessa realmente. 

Lembro-me como se fosse ontem. A noite já havia chegado e você apareceu na minha casa, pedindo comida. O prato principal daquele dia era pão com carne picada, ovo e queijo. Deixei que você entrasse e se acomodasse, coisa que você fez e muito bem, até parecia que estava em sua própria casa. Por algum motivo, você não foi embora. Por algum motivo eu deixei que você ficasse. 


Lembro-me que só havia um colchão disponível e tivemos que dividi-lo. Deitamos, então, eu, você e o meu jacaré de estimação e de pelúcia. Por algum motivo, nenhuma de nós duas conseguiu dormir naquela noite. Ficamos acordadas durante um longo tempo antes de você virar e começar a me contar sobre a sua vida. Nunca esquecerei de tais histórias divertidíssimas. Curiosa, você insistiu para que contasse algo sobre mim também e assim nós adentramos a noite.

Por algum motivo, em algum momento, eu senti que nos tornaríamos grandes amigas. Dentre todos os momentos, existe um que eu sempre lembrarei com carinho. Depois de muita conversa e papo furado você virou para o lado me abraçou. Nosso abraço durou alguns longos minutos. Em um susto você soltou-me e disse:

- Você pode me prometer uma coisa?

- Depende.

- Só direi se você disser que promete.

A curiosidade sempre foi maior do que eu, então, eu assenti.

- O quê é que você quer que eu prometa?

- Promete que não vai me abandonar? Você não sabe ainda, mas eu sou uma pessoa muito complicada. Às vezes eu dou valor demais a coisas que não tem valor e esqueço que as coisas importantes precisam muito da minha atenção. E então, você promete?

- O quê é mesmo que você quer que eu prometa?

- Que você nunca vai desistir de mim.

- Eu prometo.

Meu maior erro foi ter prometido isso a você. Qual foi a última vez que eu tive notícias suas? Qual foi a última vez que você deu sinal de vida?

Eu sempre fui uma pessoa muito fechada, difícil de ser cativada. A única coisa pior do que isso é saber que quando sou cativada é quase impossível de me descativar. Você sumiu. Simplesmente sumiu. Sinto a sua falta, mas você some. Você faz questão de sumir. E eu fico aqui, ansiosa, esperando o seu retorno.

Saiba que eu espero, mas não espero. Quero, mas não quero. Você já me magoou muito com suas atitudes e com a falta delas. Eu não aguento mais ser a sua última opção, só ser procurada quando nenhum outro amigo está disponível. Preciso de amigos, de amigos verdadeiros. De verdadeiros amigos.

Amizade deveria ser algo sagrado, algo plantado e regado por ambas as partes. De que adianta um dos amigos querer em vão? Não deveriam os dois fazer algum esforço para a amizade durar?

Não posso obrigá-la a voltar, de maneira nenhuma. A única coisa que eu peço é que volte, mas volte de vez. Mas, se não quiser voltar, não volte nem por um instante, pois meu coração pulsante não aguenta mais viver assim, com uma dor gritante.

Com carinho, Bruna.