terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Contrastes

Carmen era uma mulher forte e impetuosa e havia alcançado o sucesso ainda jovem. Nunca houve algo que ela desejasse que não estivesse ao alcance de suas mãos. 
Trabalhava para um grande jornal. Havia sido promovida há pouco tempo e agora era a dona da Casa de Vidro, como chamavam. Uma sala grande e bem decorada que permitia a quem lá estivesse ver toda a equipe trabalhando.

Olhou a sua volta e todos pareciam extremamente concentrados. Ela então olhou para cada um individualmente e percebeu que apesar de conviver a tanto tempo com eles, estava entre estranhos. Que beleza poderia haver em sua vida quando não tinha ninguém para compartilhá-la? Nem mesmo um amigo para fazê-la sorrir. Enquanto pensava notou que havia rosas em sua mesa, ela odiava rosas, então lançou o pequeno vaso contra as paredes de vidro que formavam sua sala. O barulho ensurdecedor fez com que todos se assustassem. Ainda pisando em cacos, passou por todos e saiu do jornal sem nem ao menos olhar para trás.

Parou o primeiro taxi que encontrou e pediu para que ele a levasse para o aeroporto. Ao chegar comprou uma passagem para São Paulo e ao entrar no avião sorriu ainda não acreditando no que havia feito, mas feliz por estar vivendo pela primeira vez.
Ao chegar em São Paulo já era noite e ela estava agora sozinha e sem rumo, sentou-se no banco da praça mais próxima que encontrou.

A outra moça pensava ser tão forte quanto Carmen – ou Joana d’Arc. Ela queria estar em muitos lugares, mas não tinha pra onde ir. Mas estava em São Paulo, o melhor lugar que a vida a levou. Mudou-se pra lá vindo do interior para trabalhar em um jornal, diário – do qual logo foi despedida. Caminhava em direção a mesma praça, onde por motivos totalmente desconhecidos se encontrava Carmen. Sim, seu destino era o mesmo da moça da Casa de Vidro, entretanto, no lugar da bolsa de grife que Carmen levava a mão, esta carregada uma garrafa de vinho do mais vagabundo, de plástico. Alcançou o banco da praça e a garrafa a Carmen:

- Vai um gole aí?
- N-não. Obrigada.
- Qual é? Só um gole. Somos iguais, afinal.

Carmem aceitou, deu um trago e cuspiu – ela era dessas que cospem.

Perguntou o nome da moça.

- É Melissa, mas meus amigos me chamam de Joana.
- Tudo a ver mesmo! – respondeu Carmen.
- De Joana d’Arc, sabe.
- Bom, melhor que Melissa. Melissa me parece nome de virgem.
- E qual é o seu?
- Carmen.
- Hm... Me soa como VAGABUNDA.

Carmem contou sua epopeia, explicando que não era nenhuma vagabunda. Aliás, sequer havia terminado o cinquenta tons de cinza mais escuros. Falou também de como era influente e o caralho a quatro. Sua amiga bêbada ouvia a tudo – ou quase tudo – e só interrompeu a primeira para vomitar nos próprios tênis e cabelo, que jogou para trás da orelha.


- Quer dizer então que você é a fodona nesse grande jornal?
- Sim. Por um momento pensei que você não estivesse ouvindo...
Melissa pediu um emprego, mas não chegou a se humilhar. ‘Joana d’arc não se humilharia’. Carmem se levantou do banco, pegou a garrafa da mão de sua nova amiga e matou o último gole – dessa vez não cuspiu – e ambas voltaram para suas realidades.

Uma parceria entre Murillo Magaroti e Daiane Duarte