sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Tempos Imagináveis.




 - Então, o pretérito mais-que-perfeito expressa um fato ocorrido antes de outro já terminado e...

“Que bobagem.” pensei. “colocando o pretérito mais-que-perfeito na ‘vida real’ ele não existe. Pretéritos nunca são perfeitos, que dirá, mais-que-perfeitos.”

Olhei para o lado enquanto a professora continuava resmungando sobre os tempos verbais. A maioria prestava atenção na entediante aula. Outros mexiam em seus celulares, e alguns simplesmente dormiam.

Eu não dormia, não mexia em celular algum e muito menos prestava atenção. Nada contra a minha língua, mas não estava com vontade de aprender tanto sobre ela. Acho desnecessárias tantas regras, tantos tempos... tempos. Está aí uma coisa engraçada, ou não. De qualquer forma eu nunca os entendia.

Havia uma fileira de garotas lindas ao meu redor. “pretérito.” Pensei apontando mentalmente para uma. Olhei para a da frente. “Presente, ou pode ser considerada futuro pretérito.” Não futuro DO pretérito, apenas um futuro pretérito, pois assim não teria sentido. Afinal, ela não é algo que pode ocorrer. Ela aconteceu, ou melhor, ainda acontece.

Nunca fui o tipo de garoto considerado romântico, fofo ou qualquer uma dessas besteiras que as garotas tanto procuram. Sou um idiota e um cafajeste incorrigível, e por enquanto nada pode mudar esse presente. Quem sabe o futuro mude. 

Minha melhor amiga, Anne, estava sentada ao meu lado. Olhei para ela. Um sorriso apareceu em seu rosto, seguido de uma feição de tédio para a matéria. Ela não estava entendendo nada, é claro. Mas há uma coisa sobre Anne: ela nunca entende nada.

 “Pretérito, presente e futuro.” Suspirei. “por que você não faz parte deles, Anne?”

Quantas vezes escutei sua voz reclamando de arrependimentos passados. Minha resposta era sempre a mesma: “Dane-se o passado, Anne. Ele não pode ser mudado.” E então ela aparecia resmungando das incertezas do futuro e do que teria que fazer. “Dane-se o futuro, Anne. Ele ainda não chegou.”

Mas o pior era o presente. 

“Ele é um idiota, Anne. Digo isso por também ser um. Esquece... é melhor.”

Mas ela nunca me escutava.

Como se pudesse escutar seu nome em meus pensamentos, ela se virou para mim e deitou a cabeça na cadeira. Permaneceu assim, com um olhar que dizia, implorava, para que a aula acabasse. 

- Carlos! – gritou a professora. – Já que você está prestando tanta atenção na aula, dê um exemplo.

- Ah! Claro... futuro do pretérito? – perguntei confuso. Não fazia ideia de qual tempo ela estava falando.

- Sim. – respondeu entediada. Levantei um pouco assustado com o tom de voz dela, mas disposto a não demonstrar fraqueza. Quando me deparei com o quadro minha vontade não era de explicar o futuro do pretérito.

 - Professora, gostaria de dar minha opinião ao invés de um simples exemplo. Tudo bem?
- Não, mas prossiga. – ela se sentou em uma das cadeiras e continuou a me olhar entediada.  –Dê sua opinião sobre, mas não se esqueça de depois explicar o que eu pedi.

- Sabe qual o meu tempo favorito, professora? – perguntei. Ela balançou a cabeça entediada. – o imaginável. 

- Esse tempo não existe.

- Existe sim. Às vezes, ele é melhor do que o presente. Melhor do que todos os pretéritos e do que o futuro. – virei-me e olhei diretamente para Anne enquanto dizia. – O tempo imaginável é onde tudo o que você quis fazer um dia e não pôde se realiza. Os seus medos do presente se esvanecem. E o futuro? Ah, ele continua incerto, minha cara. Mas ao menos é irrelevante no momento.