sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Sussurros Noturnos


Tick-tack. Tick-tack. O relógio antigo na parede gritava. O barulho, apesar de ainda alto, já havia sido mais incômodo, agora era apenas como uma música, quase inaudível, no fundo de um espetáculo. Enrolei-me mais em meu cobertor e me aconcheguei ao sofá. Tomei um gole do meu café e continuei ouvindo o crepitar do fogo na lareira. 

Essa é uma casa pacata, bem diferente das outras que eu servi. Ser babá não era um trabalho considerado lucrativo ou prestigioso na sociedade, mas eu precisava do dinheiro e conhecer alguns pais desesperados era divertido na maioria das vezes. Olhei para o andar de cima, Rebecca já havia ido dormir a umas duas horas e daqui a pouco daria meia noite. E eu teria que passar a noite aqui, no sofá, com um cobertor e uma xícara de café me protegendo da tempestade do lado de fora. 

Meus pensamentos foram interrompidos com o bater da porta. O vento devia ter abrido a porta ou a janela da cozinha. Levantei ainda com meu cobertor por meu corpo e fui até a cozinha. Estava muito escuro, mas não procurei pelo interruptor, não havia necessidade. Se a janela estivesse aberta eu conseguiria enxergar.

Meus cabelos negros atrapalhavam minha visão, mas não os afastei. Não conseguia enxergar nada, talvez a janela tivesse fechado novamente. Bufei e voltei para a sala. Antes de chegar ao sofá, o baque ensurdecedor novamente. Irritada voltei à cozinha e procurei pelo interruptor dessa vez, não o encontrei, mas não foi preciso. Um relâmpago me mostrou que a janela de fato estava aberta. Meu cobertor caiu de meu corpo perante o susto. Um rosto me encarava. Tão perto que se estivesse vivo, eu poderia sentir sua respiração.

Choque. Meu corpo tremia, não apenas de frio, mas de medo. Uma mulher, tão pálida, tão acabada, tão... morta. Suas feições pareciam com as minhas, mas eu não liguei para isso. Eu precisava sair do choque. Ela não é real. Ela não é real. Lágrimas de medo brotaram em meus olhos.

“Eu sou real, Lilith.” As palavras não foram proferidas, mas eu podia escuta-las. Elas foram projetadas em minha mente. A figura à minha frente sorriu e foi quando eu finalmente caí na realidade. Gritei e corri para a sala derrubando a mesa de centro e tudo o que havia no caminho. Quando cheguei à porta, Rebecca apareceu na ponta da escada. Rebecca. Eu havia esquecido ela. 

- Rebecca! Cuidado! Vamos, precisamos fugir. – gritei.

- Mas ainda é cedo, Lilly. Vamos brincar. Temos companhia.

Olhei para o lado e vi não apenas a figura que me encarou na cozinha, mas milhões de fantasmas deformados: crianças, mulheres e homens. Todos mortos. Todos levando algo que deixava claro como haviam ocorrido as mortes. Uma garotinha com uma faca pendurada em seu estômago aproximou-se de mim.

Não. Não, não, não. Virei para a porta da frente e tentei abri-la. Nada. Estava trancada. 

“Não precisa fugir, Lilith. Vai ser divertido.” Novamente a voz foi projetada em minha mente.

- Por que vocês sempre tentam fugir? Ninguém gosta de brincar comigo.

Virei-me com cuidado e Rebecca estava na minha frente segurando uma faca. Seu olhar era vago, como o de uma psicopata. Nada parecido com a garotinha que eu havia encontrado no dia da entrevista, ou até mesmo a garotinha de algumas horas atrás. Ela sorriu de uma forma estranha. Olhei para os outros fantasmas. Eles demonstravam pena, mas de certa forma estavam alegres, eu podia sentir a felicidade por conseguirem mais um membro no seu clubinho. 

- Rebecca... por favor. – implorei por entre lágrimas.

- Ah! – ela suspirou e sorriu como uma garotinha dessa vez. – então você realmente quer brincar comigo! 

- Não, Rebecca, eu não... eu quero, eu preciso ir.

- Então você não quer ficar comigo. – seus olhos pegavam fogo e por um segundo achei que eu também estava queimando.

Pulei por cima da garotinha e tentei roubar a faca. Fantasmas ao meu redor. Eles gritavam e uma dor agonizante em meus ouvidos me fez cair no chão gritando com o coro. Meu ouvido sangrava e Rebecca aproximou-se com duas coisas fatais: raiva e uma faca afiada. 

A última coisa que senti foi uma dor em meu estômago. Sangue jorrava para fora, minha mão tentou desesperadamente faze-lo parar de escorrer, mas era inútil. Então minha última visão foi a de Rebecca se ajoelhando ao meu lado tocando meu sangue com suas pequenas mãos e em seguida saboreando. Seus pais estavam ao seu lado, mas não eram reais. Eram fantasmas. E logo eu também seria uma.