sábado, 23 de março de 2013

Revoada

A água cai. Sem esforço, sem impedimento. Escorre por todos os lados, molha a terra, molha a areia, molha as folhas e flores. Eles a recebem gratos e sorrindo. E em meio a eles está ela de pés descalços, sentindo as pedras e refletindo. A água escorre pelos seus cabelos e costas, pinga de seu nariz. Ela nem parece notar. Olha para a frente e espera, sem saber muito bem pelo quê.

Algo de maravilhoso quer sair de dentro dela. Seu coração se parece com o mar, indo e vindo, espumando metodicamente, quebrando-se na beirada. Ela resolve pisar na areia fofa e úmida, sentindo os pés afundarem, e a maciez lhe agrada. Então, ela dá mais um passo e mais outro, cada vez mais rápido, até que percebe-se correndo, rindo, entregando-se para a água em seu rosto e a praia em seus pés. De braços abertos, gira.

Então, como magia, ela se vê abandonando algo nas pedras e conquistando um novo mundo ali, na areia em meio à chuva. Nada agrada mais do que uma tarde de libertação.